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[Domingo, Fevereiro 27, 2005]
Se o baiano é ou não uma raça eleita, há controvérsias.
Mas que se trata de uma raça privilegiada, não há dúvida
Nizan Guanaes
Quando eu conheci Jorge Amado em Paris, ele me levou para almoçar num
bistrô perto do seu apartamento no Marais. Ao longo do caminho, fiquei
pensando em algo bem inteligente para impressionar o grande escritor. Ao
sentarmos à mesa ele disparou: ? "Nizan, você já reparou como a bunda da
Mãe Cleusa é grande?".
A Bahia é assim. Desconcertante.
Pense num absurdo, multiplique por dois: na Bahia já aconteceu. Há em
Salvador uma casa funerária que se chama Decorativa e uma companhia de
táxi aéreo que se chama BATA (Bahia Táxi Aéreo).
É dentro deste espírito esportivo que a Bahia surpreende desde 1500.
Caetano Veloso me disse rindo que os baianos e os judeus se julgam raças
eleitas e (sic) que ambos têm razão.
Se somos ou não raça eleita, há controvérsias. Mas que é uma raça
privilegiada não há dúvida. Castro Alves, Rui Barbosa, Jorge Amado, Assis
Valente, João Gilberto, Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Glauber Rocha,
Dorival e Nana Caymmi, Raul Seixas. Não pode ser coincidência.
Não é.
É fruto da energia que o índio enterrou, que o português descobriu
misturado com o axé que o negro trouxe. É essa energia que buscam os
cansados, os estressados, os sem esperança, os de alma ou cadeira dura. E a
Bahia os acolhe com sua graça e sua benção.
Dianne Vreeland diz na peça Full Gallop, grande sucesso na Broadway, que o
azul mais bonito é o céu da Bahia. Tudo na Bahia tem luz, sobretudo as
pessoas. Que em sua simplicidade, com sua fé, com suas peles negras e
dentes alvos, dançam, cantam e iluminam um mundo rico, mas cada vez mais
pobre. Um desses endinheirados, mas pobres de espírito, certa vez resolveu
pegar no meu pé, numa festa, e me perguntou: "Se a Bahia é tão boa, porque
você não mora lá?". O Orixá me ajudou e eu respondi na lata: "Porque lá eu
não me destaco, são todos baianos"...
[Domingo, Dezembro 05, 2004]
Substância adjetiva
Percorre os rios em que correm os meus pensamentos
A sonda initerrúpita de nós mesmos sem nós
Vai por onde escorre o sal vermelho e transparente
espelida, entre gritos mumificados de desejo
e entre cheiros em forma de bolhas de sabão
até encontrar o complexo codinome amor.
Saudade é centelha flutuante de versos românticos
que antes fincavam no profundo do vindo poeta
dos não poetas, dos patetas, dos antigos astecas
saudade é permanente no sempre do afeto
mas nada que seja objeto, substantivo
A saudade é estado... é no âmago, adjetivo.
[Quinta-feira, Novembro 18, 2004]
Do princípio a princípio
Momento...
na volta sem ausência...
nossa presença é de fato certeira e os instantes precisos...
distante, reconheço por inteiro o solfejo precioso, canto, então, dedicatórias do escrito...
Intenso...
de volta às palavras...
nossa presença é intensa e não preciso das palavras...
distante, volto a buscar vocábulos, tentar arrumá-los até darem sentido aos meus sentidos...
História...
de volta ao recomeço...
nossa presença é sempre começo e estou sempre novo...
distante, conheço a história que ainda não é verdadeira, mas, já existente, me recebe como princípio...
Destino...
em torno, incertezas...
que Deus o leve p/ que eu não precise lutar tanto...
ou que tenha como meu caminho a estrela que tu me deste e para ti, a estrela que reservei...
[Terça-feira, Novembro 16, 2004]
O meu corpo sereno
Despe-se das cicatrizes
Sopro o sol com o fôlego que me resta
E ele que apenas brasa
Queima como fogo incandescente
E indecentemente me faz faiscar.
[Terça-feira, Novembro 02, 2004]
Aqueles Olhos
Eu choro um lamento doce
Em doses essenciais
As lágrimas descem
feito almas perdidas
Num vagão de ausências
A minha latente espera
vagueia pelos ares
Em busca de um sussurro
da existência concreta
Que em mim persiste
Um lamento daqueles
Que soam com o início
da aurora e não findam
Mesmo quando o mar carrega
os reflexos do sol
Choro docemente
o raiar do meu lamento
que só finda do meu porão
quando AQUELES olhos
cheirando a jasmim
pousarem no meu vagão.
[Sábado, Outubro 23, 2004]
Onde Ir
Composição: Vanessa da Mata
Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei por que moro ali
Eu não sei por que estou
Eu não sei por onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo
Só sei que o mundo vai de lá prá cá
Andando por ali, por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem.
.... Não estou aparecendo por aqui, porque fui atrás de alguém que já existia dentro em mim....
[Domingo, Agosto 15, 2004]
Eu não sei o que pode ser mais fantástico na vida do que o brotar do amor. Não consigo imaginar a minha sem relativas formas de amar. Mas não era sobre o amor que pretendia escrever. Pretendia descrever... Não sei bem...
Meus pensamentos não são claros. Minha mente hostil às vezes me deixa perdida entre detritos de insônias mal vividas e colapsos de anseios disfarçados de necessidade. E quando me ponho a perseguir qualquer coisa de bonito e tranqüilo, encontro-me num imenso vazio onde as paredes são feitas de massa de lágrimas penosas e sutis. E persisto em permanecer nessa epifania em que nunca estive. E o caos que se restabelece, desvenda-se no fruto mais sagrado da minha angústia. As visões oníricas de mim mesma vão desenhando seres indizíveis que pintam seus corpos de acordo com a proporção direta entre mim e os que me vêem. Assustam-me dia a dia conturbando a minha imagem, produzindo distorções mal-elaboradas do que sou. E o que sou senão todas essas distorções fajutas? Vivo na dependência da memória do outro. Existo das construções e descontruções vindas de relações simultâneas com o outro. Não adianta me compreender pedra se o outro me compreende água.E se o outro me julga pedra tento reavivar a memória de ser água.
E o que o amor representa nesse contexto dinâmico de inexatidões? A transcendência! A descontração mais ébria da existência. É onde o áspero e o macio se fundem numa perfeita sincronia entre ausências e permanências.
[Sábado, Agosto 07, 2004]
O mar está agitado
com mudança dos ventos
Eu
estou no mar
E venta em mim.
[Sexta-feira, Julho 30, 2004]
E vibrem os incertos!
A agonia de viver
Transborda pelos poros
E vibrem os controversos!
A doçura de ser
Habita as oposições
E vibro aqui
Expelindo toda doçura rebelde
De tentar existir!
[Domingo, Julho 04, 2004]
não procuro saber o que sou
sendo meu desejo, não procuro dizer o que não quero
nem sempre sendo o que quero
existo.